terça-feira, 10 de abril de 2012

A perfeita lei da liberdade

Esdras Emídio
Podem parecer dois termos antagônicos, principalmente para o conceito de liberdade que geralmente ouvimos. Lei e liberdade. Muitas vezes, alguns têm colocado a lei como algo que restringe a liberdade. Discordo. A lei restringe o operar das vontades, dando-lhes o momento certo de serem satisfeitas ou então proibindo que sejam operadas. Isso é de simples constatação.
Imaginemos que não houvesse leis de trânsito, o semáforo especificamente. Como se resolveriam os grandes cruzamentos? Baseado na solidariedade humana? Impossível. Num simples cruzamento de trânsito, temos vários interesses em conflito: o motorista do ônibus quer terminar logo sua viagem, o empregado atrasado ou quase a se atrasar quer chegar logo ao serviço, o taxista com um passageiro super apressado, a ambulância com um doente ou ferido necessitando de socorro etc. Nem sempre eles estarão seguindo o mesmo fluxo, logo terão de ceder a vez. Fá-lo-iam todos seguindo simplesmente os ditames de sua consciência?
O simples semáforo restringe a vontade que todos têm de chegar o mais rápido possível a um determinado destino. Ninguém em sã consciência reclama do inventor do semáforo. Graças a esse mecanismo, é possível pôr ordem no fluxo, e todos conhecemos ao menos um caso em que o desrespeito a essa “lei” tenha gerado graves conseqüências.
A lei vem garantir que haja liberdade, que as pessoas não fiquem reféns da própria vontade ou sejam prejudicadas pelas vontades de outrem. Sem lei, não há essa ordem. O que dizer, porém, da lei de Deus?
A lei de Deus tem a mesma função de controlar o exercício das vontades. Nos Dez Mandamentos, escritos pelo dedo de Deus – portanto é Ele Seu autor –, encontramos oito mandamentos negativos. “Não” farás isso ou aquilo. Esse é um claro sinal de que a lei veio restringir as más vontades do homem. Para haver então mandamentos restritivos, era necessário haver algo no homem que, de uma forma ou de outra, o fizesse ir naturalmente contra o que diz a lei. Não houvesse uma predisposição ao pecado, não haveria necessidade de dizer “não farás” isso ou aquilo. O pecado nem precisaria ser nomeado. Por isso está escrito: “...a força do pecado é a lei” (I Coríntios 15: 56).
É a lei, pois, pecado? “De modo nenhum” (Romanos 7: 7). A mera exclusão ou inclusão da lei na vida de alguém não o faz perfeito ou sem pecado perante Deus. Como dito anteriormente, a lei restringe a operação da vontade, faz claro que operar toda a vontade que se tem, a todo momento e algumas a momento algum, não é correto. Contudo, isso não tira do coração do homem a vontade em si. E, perante Deus, maus pensamentos são tão ruins quanto más ações (Mateus 5:28).
Na nossa relação com Deus, a lei por si não nos garante a liberdade. Aquele que sonda todas as ações, também sonda os corações (as intenções). Alguém que tenha conhecimento da lei divina e não cometa as suas proibições, no entanto, viva a alimentar no seu coração o que lhe é contrário, não está em nenhuma vantagem sobre aqueles que praticam o pecado. É ele mesmo um igual praticante.
Como pode então um homem cumprir a lei de Deus? Alguém poderá logicamente perguntar. Outra pessoa poderá sabiamente responder: “Só morrendo!”. Sim. Somente morrendo.
Há duas comparações bíblicas para o homem que não crê em Jesus Cristo como seu Único e Suficiente Salvador e, fatalmente, não obedece à lei de Deus: Mortos ou Escravos do pecado (Efésios 2: 1; Romanos 6: 20). Mortos não ouvem, mortos não expressam vontade, mortos não podem decidir. Mortos no pecado, separados de Deus, igualmente não podem nada daquilo. É necessário que haja vivificação. Essa é a vivificação prometida por Cristo desde já, essa é a água prometida por Ele, que dá vida e nunca mais nos deixa sedentos (João 4: 14; Colossenses 2: 13). A partir dessa vivificação, é inevitável uma morte para o pecado (Romanos 6: 2 e 11).
A morte para o pecado e vida para Deus é a mesma situação da libertação do escravo do pecado que agora é, pela fé em Cristo, um servo de Deus. Isso não faz da pessoa um ser perfeito instantaneamente, mas não é possível viver em ambas as situações (ser escravo do pecado e servo de Deus, pois é “impossível servir a dois senhores” Mateus 6: 24).
Deus, em Sua infinita sabedoria a amor, concedeu os Dez Mandamentos após a saída do Seu povo da condição de escravos, na qual passou cerca de 430 anos no Egito. Embora a lei sempre tenha sido vigente, pois todas as suas infrações sempre foram pecados, e Abraão, pai daquele povo, recebeu testemunho do próprio Deus que “guardara Suas leis, preceitos e estatutos” (Gênesis 26: 5), essa semente de Abraão não poderia obedecer a Deus como escravos no Egito. Por essa razão, a lei lhes foi revelada quando saíram dessa degradante condição.
Assim também sucede hoje ao homem. Não há poder no homem para que decida obedecer a Deus, é necessário que o Senhor providencie a sua “saída do Egito”. E ela foi providenciada. O Cordeiro pascal já foi morto, o preço das transgressões à lei já foi pago. Portanto, aquele a quem o Espírito Santo tem dado a entender, já compreende que Jesus Cristo é o meio pelo qual o homem pode ser livre, pois Ele mesmo é “o caminho (a Deus), e a verdade (que liberta) e a vida (eterna)” (João 14: 6); a Verdade que liberta (João 8: 32), o próprio Jesus.
Somente os libertados por Jesus podem cumprir o que diz o apóstolo Tiago: “Aquele, porém, que atenta bem para a lei perfeita da liberdade, e nisso persevera, não sendo ouvinte esquecidiço, mas fazedor da obra, este tal será bem-aventurado no seu feito.” (Tiago 1: 25).
E não somos libertados em vão. Tal como a saída do Egito foi necessária para que o povo tivesse clara a lei de Deus, escrita em tábuas de pedras por Ele mesmo (Êxodo 31: 18), assim também a nossa saída da condição de escravos, pela Graça de Jesus, é necessária para que tenhamos escrita, em nossos corações pelo Espírito Santo, a lei de Deus (Jeremias 31: 33; Hebreus 8: 10).
O propósito de Deus em salvar o homem é torná-lo novamente e integralmente Sua imagem, conforme Sua semelhança (Gênesis 1: 26). Para tanto, é necessário criar um novo homem, nascido de novo que, por Deus, é criado “em verdadeira justiça e santidade” (Efésios 4: 24).
Alguém imagina algo que seja justo e santo sem a lei? A própria lei é “santa e o mandamento é santo, e justo e bom” (Romanos 7: 12). Esse é o parâmetro de santidade que o vivificado e libertado por Deus tem. Ele não confia em sua consciência corrompida, ele busca na Palavra de Deus os seus conselhos, ele medita na lei de dia e de noite e isso é saúde para seu corpo, dá sabedoria e alegra o seu coração (Salmo 19).
Tal como a lei penal aflige o homem que a transgride, colocando-o por vezes numa prisão, assim a lei de Deus é uma aflição ao homem que vive no pecado. Mas, ao liberto por Cristo e vivificado por Deus, ela é tema das suas meditações e alegrias.
Que possamos buscar do Senhor as condições necessárias, pois, em nós mesmos, não as temos (não tínhamos condições de decidir servi-Lo, mas Ele tem Se revelado a nós; não tínhamos condições de fazermos Sua vontade, mas Ele tem sido nossa Força. Aleluia!). Aquele que é Fiel e Justo e nos alistou, por graça e misericórdia, em Suas fileiras, dar-nos-á tudo quanto seja necessário para que estejamos alinhados à Sua vontade, que é boa, agradável e perfeita (Romanos 12: 2) sempre.
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