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sábado, 14 de abril de 2012

O discipulado de Paulo

Jair Barreto

Imagino como o testemunho de Estêvão foi relevante para a conversão de Paulo.
Ele, que vivia a serviço do Deus "olho por olho e dente por dente". Ver Estêvão, em sua última súplica, pedir o perdão de Deus aos que lhe matavam.
Como isto já devia estar transtornando suas convicções. Mas que Jesus era este, que ensinou aos seus discípulos que eles atrairiam outros a sua fé, sem lutas, sem socos, sem gritos ou imposição.
Interessante notar que no momento do seu encontro com Deus, na estrada de Damasco, ao ser barrado por aquela voz e luz, ele imediatamente passa a chamar Jesus de Senhor, sem indagações nem dúvidas, o que nos daria base para presumir o que discorremos acima sobre a influência de Estêvão a sua conversão.
Imediatamente, sua segunda pergunta foi: Que queres que eu faça?
Aqui vemos a predisposição em obedecer prontamente!
Se humilha, deixando-se ser guiado por outros. Vai até a casa designada e fica em contrição completa, em jejum e oração, imagino que refletindo todas as mortes e assassinatos daqueles que serviam a Jesus, assassinatos ora presenciados, ora por ele executados.
Cego, completamente vulnerável, talvez aguardando sua própria condenação, cuja consciência e religiosidade prévia diziam que devia ser "vida por vida", logo, que a sua, por aquilo que ele mesmo cria, deveria ser ceifada em razão dos seus atos.
Esperando por quem? Justo por um discípulo de Jesus, alguém que provavelmente poderia ser mais uma vítima sua no futuro, para que lhe restaurasse a visão.
Melhor ficasse cego, imagino que talvez pensou, do que de repente observar alguém parente de alguém que matei.
Para que a restauração da vista? A do apóstolo foi para enxergar a beleza do evangelho de Jesus, que culmina num ato de misericórdia de Deus justamente através de alguém que humanamente e pela própria lei a que Paulo havia se devotado a vida inteira, deveria matá-lo, o que não acontece, somente por intervenção divina, que mandou a Ananias recolher seu preconceito, raiva (talvez existente) e estender a mão de misericórdia.
Outra coisa... Porque o próprio Jesus, assim como o cegou, não diretamente o curou também?
Penso que justamente para que fique muito, muito claro, algo que só a Deus pertence: a punição de um homem por seus pecados, esta unicamente pelas mãos limpas, santas e justas de Deus. Da parte da igreja, a que lhe cabe, estender a mão de perdão e reconciliação a todo e qualquer a quem Deus em sua soberania resolver chamar de filho.

domingo, 12 de setembro de 2010

Testemunho de conversão de Maurício Freire, ex-homossexual

A Paz de Cristo para todos!
Eu estava sem nada pra fazer (risos), navegando na web, quando aderi a uma comunidade no Orkut chamada "Morro, mas não nego a Jesus".
Estava lendo os tópicos quando cheguei a um intitulado "Meu testemunho, minha verdade". Li vorazmente e senti meu coração se alegrar ao ver que Deus continua, sim, transformando. É um relato de um jovem senhor que foi homossexual e hoje está liberto e transformado pelo Poder do Sangue de Jesus, casado e já tem um bebê. Entrei em contato com esse irmão, vi suas fotos e pensei comigo: "Satanás perdeu de novo, e vai continuar perdendo!"
Glória a Deus!
Segue, abaixo, o testemunho do irmão Maurício Freire, contado por ele mesmo. Senti uma comoção tremenda ao ler estas palavras. Que você, leitor, sinta o mesmo!

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Quando meus pais se casaram, eles eram evangélicos e pertenciam a uma denominação muito rígida e doutrinária. Pouco tempo depois do casamento, meu pai começou a beber e se desviou da igreja. A bebida o transformou em um homem violento e com isso minha mãe passou a sofrer maus tratos nas mãos dele. Não demorou muito e minha mãe também acabou se desviando da igreja.


Com o passar dos anos, os filhos foram nascendo e quando minha mãe ficou grávida de mim, ela já tinha cinco filhos e minha família estava passando por sérios problemas com meu pai, por esse motivo minha gestação foi rejeitada por minha mãe que não queria mais um filho pra sofrer. Nasci no dia 7 de maio de 1972. Nessa época minha família estava totalmente destruída e quando eu estava com dois anos meus pais se separaram por iniciativa da minha mãe, que não agüentava mais a vida que estava levando. Então, minha mãe alugou um quartinho num cortiço muito feio onde havia várias casas de um cômodo e um banheiro comunitário para todas as famílias. Ali fomos morar, minha mãe, eu, meu irmão (que é dois anos mais velho que eu) e duas irmãs. Meus dois irmãos mais velhos ficaram morando na casa da minha avó materna, com meu pai. Enquanto minha mãe trabalhava, minhas irmãs que eram um pouco mais velhas (uma tinha 10 e a outra 12 anos) tomavam conta de mim e do meu irmão.  Como eu não estava acostumado a ficar sem a minha mãe, eu chorava muito e por esse motivo passei a ser humilhado pelos vizinhos e também por meus irmãos que me chamavam de chorão, mocinha, florzinha, e até de bichinha, tudo isso aos três anos de idade. Sem saber, meus irmãos e até minha mãe deram legalidade para que alguns demônios começassem a atuar em minha vida. Também passei a ser vitima de violência doméstica, pois meus irmãos não sabiam como lidar com a minha situação e então me batiam muito e apanhar passou a fazer parte da minha rotina. Ali naquele lugar havia uma vizinha que sempre brigava com uma das minhas irmãs e eu era usado por ela para afrontar minha irmã, então ela me batia, me puxava pelos cabelos e me xingava com o objetivo de atingi-la. A mãe dessa vizinha era mãe de santo e um dia um encosto que se apoderou dela, disse que havia uma imagem de um demônio enterrada no meio da nossa casa e por isso a filha dela e minha irmã viviam em pé de guerra. Num sábado eu acordei e a casa estava cheia de gente e havia um grande buraco embaixo da mesa, minha mãe estava segurando uma imagem de um demônio chamado “tranca rua”. Esse demônio foi achado enterrado em nossa casa. Como naquele lugar só havia um banheiro para todas as famílias, era comum colocar as crianças para tomarem banho juntas e às vezes no meio do banho algum adulto entrava no banheiro alegando estar com pressa. Foi nessa época que eu passei a ser vitima de abuso sexual por parte de outros garotos e também adultos. Essa situação passou a ser comum em minha vida, pois sempre aparecia alguém para abusar de mim. Eu sempre ouvia das pessoas que abusavam de mim que aquele era um segredo e que se eu contasse pra alguém eu iria apanhar então eu sempre ficava quieto. Um dia, estávamos eu e minha mãe em casa quando eu falei algo que tinha ouvido durante um dos momentos que fui abusado, no mesmo instante minha mãe pegou um sapato e bateu na minha boca. Na hora eu associei aquela atitude com o que me falavam sobre contar pra alguém e apanhar, então eu me calei de vez. Talvez esse tenha sido um pedido de socorro, e ela não entendeu. Minha mãe sempre nos amou muito, porém ela achava que aquela era a forma correta de se educar uma criança. Quando eu estava com quatro anos, minhas irmãs começaram a trabalhar, e minha mãe passou a deixar meu irmão e eu na casa de uma senhora que cuidava de crianças. Naquela casa funcionava um centro de macumba e ali eu também fui vitima de abuso sexual e violência por parte dos filhos da dona da casa. Eu e meu irmão dormíamos no local onde eram feitos os rituais junto com mais dois meninos. Enquanto todas as crianças brincavam, eu e meu irmão passávamos boa parte do dia debruçados no muro perguntando para as pessoas que passavam na rua se aquele dia era sábado, porque era no sábado a tarde que minha mãe ia nos buscar para passarmos o final de semana com ela e com minhas irmãs. Sempre que alguém dizia que não era sábado e que ainda faltavam alguns dias para chegar o sábado, nós chorávamos muito. Eu vivi naquele lugar alguns dos piores dias da minha vida. Ficamos ali pouco tempo, pois uma das minhas irmãs logo saiu do trabalho e numa terça-feira passou para nos levar com ela. Meu coração parecia que ia explodir de tanta alegria. Pouco tempo depois meu irmão começou a estudar e minha situação ficou um pouco pior do que era, pois quando minha irmã ia levá-lo a escola eu ficava trancado em casa, sem comida e chorando ou ficava aos cuidados dos vizinhos que sempre me maltratavam.  Certo dia apareceu um rapaz em casa dizendo que era meio parente nosso, e suas visitas passaram a ser constantes. Ele conquistou a confiança da minha irmã e começou a se oferecer pra cuidar de mim enquanto minha irmã ia levar meu irmão à escola. Aproveitando-se que minha irmã sempre demorava muito pra voltar pra casa, ele também começou a abusar de mim e isso passou a acontecer com freqüência, muitas vezes ele nem esperava minha irmã voltar e me deixava sozinho. Quando nós nos mudamos daquele lugar, fomos morar justamente no mesmo quintal onde o tal rapaz morava. Ali tudo ficou mais fácil pra ele, pois agora éramos vizinhos de parede. Esse novo lugar já era um pouco melhor pra se morar, ali o quintal era cimentado e tinha 2 banheiros para as famílias. Logo que nos mudamos para esse lugar, minha mãe começou a freqüentar um centro de macumba de uma prima do meu pai e sempre que íamos lá, os demônios que se manifestavam ali diziam que eu era muito especial pra eles e nessa época eu acabei sendo consagrado a eles. Quando eu estava com sete anos, meus irmãos mais velhos vieram morar com a gente. No começo eu pensei que minha vida iria melhorar, pois eu teria a proteção deles, porém não foi bem isso que aconteceu, pois meu irmão mais velho que estava com dezenove anos já era um viciado no álcool e também havia se tornado muito violento. Nossos dias passaram a ser mais difíceis do que já eram. Passamos a apanhar do meu irmão por qualquer motivo e nunca podíamos falar nada para a minha mãe ou para meu outro irmão, caso contrário apanhávamos mais ainda no dia seguinte. Quando minha irmã mais nova completou quatorze anos, ela fugiu de casa para se casar, pois não agüentava mais tanto sofrimento e minha mãe temendo o pior a emancipou e ela se casou em janeiro de 1979. Com doze anos eu já sabia no que eu havia me tornado, já tinha noção do certo e do errado, pois nessa época eu comecei a procurar outros homens para ter relação, sabia que eu era um homossexual, só não admitia por medo, já que sempre ouvia falar muito mal dos homossexuais. Foi nessa época também que um senhor me pediu para ajudá-lo a carregar alguns pacotes até sua casa e quando chegamos lá ele tentou me estuprar. Fui salvo por dois "amigos" que desconfiaram das intenções deste senhor, e nos seguiram e bem na hora apareceram na janela me chamando. Um deles espalhou o que viu no bairro e mais uma vez eu passei a ser motivo de gozação das pessoas. A humilhação foi tanta que eu passei a freqüentar um bairro vizinho, onde arrumei uma namoradinha só para entrar pra turma. Aos treze anos eu comecei a trabalhar em uma empresa que sempre prestava alguns serviços no centro de São Paulo e ali eu comecei a ter contato com outros homossexuais e comecei a achar tudo muito normal. Um tempo depois ingressei no ramo da moda onde comecei a participar de desfiles como modelo. Quando eu estava com quinze anos, minha mãe se mudou de onde nós morávamos e foi morar com meus irmãos e minha irmã na zona leste e eu fui morar no centro da cidade. Abandonei meus estudos e aluguei um quarto no apartamento de um senhor que também alugava vagas para garotos de programa. Fiquei ali durante alguns meses e foi tempo suficiente para eu ter contato com a podridão do mundo homossexual. Agora eu estava exatamente onde os demônios que atuavam na minha vida queriam.  Comecei a me prostituir nas ruas do centro e às vezes até anunciava em jornais. Minha família e meus amigos não sabiam de nada da minha vida, eles sempre me viam como um bom rapaz, um trabalhador responsável, eu sempre ajudava minha família e mesmo fazendo programas, eu ainda fazia uns bicos como modelo para justificar o dinheiro que entrava e também as minhas saídas. Eu era também muito mentiroso, afinal eu tinha que viver inventando histórias para justificar a vida que levava. Com o tempo eu passei a usar drogas e a beber com meus amigos, mas isso era só para fazer parte da turma e não ser rejeitado, pois havia em mim um espírito de rejeição que atuava nesse sentido. Esse espírito de rejeição também me fazia ser soberbo e com isso eu comecei a desprezar meus irmãos e a me sentir superior a eles. Comecei a me achar melhor do que todo mundo. Eu era o mais bonito, o mais legal, o mais inteligente, enfim o mais tudo. Tinha mania de perfeição e tratava meus irmãos e alguns amigos com certa inferioridade e com arrogância. Aos dezessete anos tive problemas no lugar onde estava morando e então fui passar um tempo na casa da minha mãe. No período que estive lá, meu pai voltou a morar com minha mãe, pois não tinha onde morar e estava vivendo como um mendigo, sempre jogado de um lado para o outro. Durante o tempo em que fiquei na casa da minha mãe, eu briguei muito com meu pai e com meu irmão mais velho, o que me levou a ir embora outra vez. Então em 1990 eu voltei a morar no centro e pouco tempo depois meu pai abandou o vicio do álcool. Aos dezenove anos fui convidado para posar nu para uma revista direcionada ao público homossexual e passei a usar isso como um trunfo a meu favor para vender minha imagem como garoto de programa. Tive vários relacionamentos homossexuais, porém nunca fui feliz em nenhum deles, sempre me faltava algo. Era como se a pessoa com quem eu me relacionava levasse um pedaço de mim depois da relação. Eu me envolvia com outros homens e muitas vezes depois da relação eu não queria vê-los na minha frente. Não conseguia entender o que se passava comigo, algumas vezes eu até humilhava a pessoa depois da relação.  Me envolvi com homens casados, com homens famosos, com religiosos, enfim eu não perdia a oportunidade de ter sexo. Um tempo depois que posei nu, resolvi dar um tempo com a prostituição, pois comecei a receber convites para participar de muitos eventos e achei que não seria legal se as pessoas soubessem da vida que eu levava, então em 1992 eu comecei a trabalhar numa companhia de teatro. Nessa companhia eu também me envolvi com macumba e sempre estava no meio de sessões que eram realizadas na casa de algumas pessoas que trabalhavam lá. Por várias vezes eu me consagrei a pombas gírias, usando seus perfumes e objetos que elas têm como marca na vida de pessoas que as seguem. Em 1998 eu saí da companhia de teatro e comecei a trabalhar em emissoras de TV. Nessa faze da minha vida eu fiz amizade com muita gente famosa e trabalhei como produtor artístico de grupos musicais. Fui produtor de TV, fiz assessoria para artistas, trabalhei em gravadora e de vez em quando ainda me prostituía quando a situação apertava. No final de 1999 eu me envolvi com um homem bem mais velho que eu e fui morar com ele em sua casa. Eu tinha repulsa daquele homem, porém ele me bancava e por um tempo eu o aturei. Em fevereiro de 2000 eu fui para a Europa com esse homem e pensei seriamente em abandoná-lo lá. Em março do mesmo ano eu resolvi dar um fim nesse relacionamento e por isso passei a sofrer uma perseguição por parte desse homem. Comecei a não ver sentido na minha vida e passei a perceber que algo estava errado, afinal eu era infeliz, tinha vários "amigos" e me sentia sempre só, vivia em festas badaladas e chiques onde muitas pessoas dariam tudo pra estar e quando eu chegava em casa a solidão e o vazio tomavam conta de mim. Numa noite que cheguei em casa depois de uma balada, comecei a falar com Deus e disse que se aquela era a vida que Ele tinha pra mim, então que Ele me ajudasse a ser feliz, porque eu não era. Pedi a Ele uma pessoa que me amasse de verdade e que eu também a amasse sem interesses, agora se aquela vida não fosse o que Ele queria pra mim, então que Ele mudasse minha história. Passei a conversar com Deus todas as noites pedindo a mesma coisa. No mês de outubro do mesmo ano eu fui chamado pra participar da gravação de um comercial na praia e no meio dos modelos tinha um rapaz que chamava a atenção das pessoas por ser muito bonito. Num momento de pausa eu me aproximei desse rapaz e começamos a conversar. Perguntei o nome dele e ele me disse que se chamava Luiz, e uma das primeiras coisas que ele me perguntou foi se um amigo que estava comigo era meu namorado. Achei estranha a pergunta, mas disse a ele que não, que era apenas um amigo, então ele disse ainda bem porque você é um cara bonito e me perguntou se eu era gay, fiquei meio sem jeito, mas respondi que sim. Então ele olhou nos meus olhos e disse: “Meu sai fora dessa, Jesus te ama e Ele não aprova essa vida não”. Confesso que fiquei meio chocado quando ele me falou aquilo, afinal eu achava que ele estava me paquerando. Mas ele não se intimidou e continuo falando de Jesus. No começo cheguei a pensar que ele estava pecando, pois falava de Jesus com muita intimidade e eu sempre ouvia falar que Jesus não gostava disso e não aprovava aquilo e que Jesus castigava, mas ele me falou de Jesus como se fosse o melhor amigo dele, então eu me interessei por esse Jesus. Mesmo sabendo que eu era homossexual o Luiz se tornou meu melhor amigo e ele não perdia a oportunidade de me falar do amor que Jesus tinha pela minha vida. Por várias vezes ele me convidou pra ir à igreja com ele, mas eu nunca ia, sempre arrumava uma desculpa e eu sempre o convidava para ir às festas que eu organizava e ele ia. Algumas vezes eu arrumei trabalhos de modelo para ele e ele acabou se desviando da igreja, mas não deixou em momento algum de falar de Jesus pra mim. Sem que ninguém soubesse, eu visitei algumas igrejas, mas não me senti bem em nenhuma, parecia que o meu caso não tinha jeito e eu já estava conformado com minha situação, achava mesmo que Deus tinha me criado homossexual. Em junho de 2003 eu acompanhei a parada do orgulho gay de São Paulo e no trajeto eu vi coisas que me fizeram ter vergonha do que eu era, então mais uma vez eu cheguei em casa muito chateado e disse pra Deus que eu não queria mais aquela vida e pedi a Ele em nome de Jesus que me desse algum sinal de que aquela não era a vida que Ele queria pra mim. No mesmo mês eu fui visitar meus pais na cidade de Indaiatuba no interior de São Paulo e num domingo eu estava limpando um terreno que nós tínhamos, quando um vizinho chamado Saulo e que mora em frente a esse terreno se aproximou e começou a me contar o testemunho de um Pastor que tinha sido um travesti, quando ele começou a falar achei que era mais um historia de crente, mas quando ele contou alguns detalhes eu percebi que conhecia o tal Pastor da época que ele era travesti, não tive dúvidas, cheguei em casa e disse pra Deus que se ele tinha feito aquilo na vida da Paulete (esse era o nome do Pastor quando ele era travesti) então o meu caso era mais simples, porque eu não era um travesti. Em novembro eu acompanhei um amigo meu a uma reunião de negócios e durante essa reunião surgiu o assunto igreja, não sei por que, mas me senti muito atraído por esse assunto naquele dia. No final do mês eu fui pra Dourados no Mato grosso do Sul para dar aulas para modelos e em janeiro de 2004 eu voltei a São Paulo com uma modelo para acompanharmos os eventos de moda e nesse período, nós ficamos hospedados no apartamento desse amigo que havia me levado a reunião e ele me falou que estava freqüentando uma igreja muito boa. Então eu disse a ele que a igreja devia ser boa mesmo ou então que deveria ter alguém muito interessante lá pra ele estar freqüentando. A convite desse amigo eu fui conhecer a igreja e quando eu entrei lá o grupo de louvor estava cantando o louvor PRECISO DE TI, e Deus falou tanto comigo através desse louvor que eu sai dali maravilhado com o que tinha ouvido. No dia seguinte eu encontrei o Luiz e contei pra ele que tinha ido à igreja e falei também do louvor e da maneira como fui tocado. O Luiz ficou tão feliz com o que falei e pra minha surpresa ele tinha um CD com aquele louvor no carro e colocou pra nós ouvirmos, mais uma vez fiquei encantado com o louvor, nunca tinha ouvido nada tão lindo. No domingo seguinte, dia 15 de fevereiro. Fui novamente à igreja e de novo o grupo de louvor cantou PRECISO DE TI, senti claramente que aquilo era pra mim e no final do culto quando o Pastor Walter Brunelli fez o apelo eu não tive dúvidas, levantei minha mão direita e aceitei Jesus como meu Único e Suficiente Salvador. Não me lembro de ter tido tanta certeza de algo como tive aquele dia. Meu amigo Luiz nem acreditou quando soube do acontecido, ele ficou muito feliz e nesse dia eu tive a certeza de que ele era mesmo meu amigo e que Deus o tinha colocado em meu caminho. No final de semana seguinte eu tive que voltar pra Dourados, pois iria começar o meu curso para modelos. E lá eu tive um comportamento pior do que antes. Parecia que eu tinha me transformado em um ninfomaníaco e só pensava em sexo. Fazia as minhas barbarias e ainda dizia para as pessoas que eu era crente. Na verdade eu não havia me convertido e sim me convencido. Fiquei no Mato Grosso do Sul dando aulas em algumas cidades durante um ano e em dezembro de 2004 eu voltei a São Paulo.  Logo que cheguei a São Paulo fui para o interior passar uns tempos na casa dos meus pais e decidir o que faria da minha vida, foi então que no dia 2 de janeiro de 2005 eu recebi um telefonema da mãe de uma das minhas alunas que estava trabalhando para uma agência de modelos no Rio de Janeiro por indicação minha. No telefonema ela me relatou alguns absurdos que estavam acontecendo lá com todos os meus alunos e me pediu para trazê-los para São Paulo.  Apesar da vida que eu levava, nunca desrespeitei nenhum de meus alunos, pelo contrário eu sempre os protegia e os alertava sobre a exploração sexual no meio artístico, por esse motivo eu era muito querido por eles. Além do mais eles nunca souberam nada da minha vida, pois eu mentia muito bem. Com a ajuda de um amigo eu consegui alugar 2 apartamentos em um Flat no centro e trouxe meus alunos que estavam no Rio para morarem aqui, então coloquei algumas meninas em um apto, os meninos em outro e duas meninas ficaram com a mãe de uma delas em outro apto que ela comprou no mesmo prédio.  No dia 8 de fevereiro eu saí de casa com a intenção de acompanhar uma banda de carnaval que sairia desfilando pelo centro de São Paulo. Nessa banda acontece de tudo o que não presta: sexo, drogas, bebidas, prostituição e vandalismo dos mais absurdos. Mas naquele dia Deus tocou em meu coração e eu acabei ligando na casa do irmão Alaim, que eu havia conhecido um ano antes na igreja. Ele não estava em casa e quem me atendeu foi a esposa dele, então eu perguntei a ela se iria ter culto na igreja aquele dia já que era uma terça-feira de carnaval e ela disse que sim, então confirmei o endereço com ela e fui até a igreja. Quando cheguei lá fiquei muito feliz, pois fui muito bem recebido e uma das irmãs ainda perguntou do meu amigo que havia me levado lá um ano atrás. Achei aquilo muito legal, afinal eu só havia ido àquela igreja 2 vezes e depois não apareci mais. Me senti amado naquele dia, mas um amor verdadeiro. Depois do culto fui conversar com o Pastor e contei a ele um pouco da minha história, mas não falei nada sobre a minha homossexualidade, pois fiquei com medo.  Na mesma semana eu encontrei o meu amigo Luiz e pra minha alegria e honra e glória de Deus ele havia voltado pros caminhos do Senhor e parte de sua família também havia se convertido. Passei a freqüentar todos os cultos, larguei aquela vida mundana de pecados e comecei a me dedicar às atividades da igreja. Um dia eu comecei a sentir uma dor muito forte nas minhas costas e fui conversar com o Pastor a respeito dessa dor, então ele me disse que sabia o porquê da dor, mas que ainda não poderia me falar sobre o que se tratava, ai ele me pediu pra eu meditar nos capítulos 1 e 6 de ROMANOS. Fiz o que ele me pediu e comecei a entender o porquê da dor. Alguns dias depois eu procurei o Pastor Ricardo que é líder dos jovens e contei pra ele um pouco da minha historia com alguns detalhes, inclusive sobre minha homossexualidade e disse a ele que eu estava liberto. Achei que ele fosse me colocar pra correr dali, afinal de contas se no mundo eu já não era bem aceito, imaginei que numa igreja Assembléia de Deus eu fosse ser escorraçado. Mas aconteceu o contrário, ele segurou em minhas mãos, disse que estava muito feliz com a minha libertação e com minha atitude e orou por mim. Depois dessa confissão o Pr. Walter disse que já podia me falar o porquê daquela dor nas costas e me revelou que eu havia sido liberto de um espírito maligno (pomba gíria) que me levava a agir da forma como eu agia, disse que esse espírito maligno foi arrancado das minhas costas e quando isso aconteceu ele me feriu espiritualmente. Não tive dúvidas da minha libertação e Deus abençoou muito a minha vida quando eu me firmei na igreja e nos caminhos dEle.  Já fazia algum tempo que eu estava desempregado e sem registro em carteira, mas Deus supriu todas as minhas necessidades e sempre que eu pensava que ia passar algum aperto financeiro, Deus usava algum irmão da igreja e até mesmo gente de fora pra me abençoar. Não demorou muito e todos os meus alunos (eram oito no total) que moravam comigo também aceitaram a Jesus em suas vidas. Minha casa se transformou num paraíso, só se ouvia louvores o dia todo e só se fala de Deus. Em junho do mesmo ano Deus abriu uma grande porta de trabalho pra mim e Ele tem me honrado e me abençoado todos os dias nesse trabalho, a ponto das pessoas que trabalham comigo sempre me perguntarem o que eu tenho de tão especial. Em agosto de 2006 Deus nos deu a oportunidade de gravarmos o 1º CD e o DVD da nossa igreja nesse lugar onde eu trabalho que é um lindo teatro, e esse mesmo teatro foi o lugar que Deus escolheu para me abençoar com o meu casamento. Me casei em 12 de maio de 2007 com uma verdadeira serva de Deus num teatro onde muitos artistas sonham em se casar, mas Deus só abriu essa porta pra mim. Meu casamento estava uma benção, mas ainda sentia que alguma coisa não estava muito bem, então em outubro de 2008 eu fui a um retiro espiritual, onde passei por mais um processo de libertação e também onde foram reveladas a mim as maldições que estavam na minha vida desde o ventre da minha mãe. Hoje estou totalmente liberto, sou um homem feliz, bem casado, pai de uma linda menina e servo de um Deus que é fiel a quem o busca de verdade. Para cada dia em que eu vivi na vergonha, o Senhor tem me dado dupla honra. Hoje eu e minha esposa Erika estamos vivendo as promessas de Deus para nossas vidas. Sei que o melhor de Deus ainda está por vir, por isso agradeço a Deus todos os dias por tudo o que ele tem feito em minha vida. Meu passado embora seja vergonhoso, hoje serve para eu honrar e glorificar o nome do Senhor e também mostrar para as pessoas que Deus é maravilhoso e que Ele jamais desampara aqueles que o buscam com sinceridade.  A Deus sejam dadas todas as glórias pela transformação da minha vida.

Maurício Freire
Cel: 11- 83802682

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Servindo a Deus com um coração idólatra

Mateus Ferraz de Campos


Há alguns meses, um amigo perguntou-me à queima-roupa, como se estivéssemos em um concurso bíblico: “Qual o primeiro dos dez mandamentos?” Reagindo com a mesma impetuosidade da pergunta, respondi a primeira coisa que me veio à mente: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento” (Mt 22.27).
Só depois de ver seu olhar de deboche, percebi que havia respondido rápido demais. Sem pensar, eu havia substituído o primeiro dos dez mandamentos, expresso em Êxodo 20.3, pelo resumo dos mandamentos dado por Jesus no Novo Testamento. Mas a brincadeira me fez pensar. Por que eu havia ignorado o tão solene mandamento: “Não terás outros deuses diante de mim”?
Meses depois, durante um período de oração, pedi a Deus que falasse comigo através de sua Palavra. Como todo pastor, tenho que exercer a disciplina de buscar na Palavra alimento para minha alma de ovelha e não somente novas mensagens para o rebanho que pastoreio. Isso pode levar algum tempo, a princípio.
Naquele dia, porém, meus olhos passaram novamente pelo texto de Êxodo 20.3, 4: “Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima nos céus, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra.” Sem nem ao menos considerar o texto, virei as páginas na Bíblia, buscando algo que fosse direcionado a uma pessoa já “convertida”, e não uma lição básica sobre idolatria destinada aos neófitos do Reino de Deus. Foi então que senti que Deus me levava de volta ao texto, e quanto mais eu o lia, mais parecia penetrar em minha alma. 

Uma Questão Mal Resolvida

Percebi que, enquanto meditava, algo acontecia paralelamente em meu coração. Eu tentava convencer a mim mesmo de que não havia nada a aprender sobre idolatria. Eu não era idólatra. Fora criado em um lar evangélico à prova de idolatria. Nascido em berço evangélico e criado em um país predominantemente católico, fui educado a abominar imagens de escultura desde minha infância. Eu as via como verdadeiras representações de demônios; abominava as romarias que passavam em minha vizinhança carregando imagens em altares portáteis. Nunca havia olhado mais do que cinco segundos para qualquer imagem, muito menos me prostrado diante de uma. O que eu, um cristão evangélico, teria a aprender sobre idolatria?
Pouco a pouco, percebi que estava vivenciando uma imensa batalha em minha mente. Enquanto Deus queria lidar com questões mal resolvidas em minha espiritualidade, minha natureza humana procurava esquivar-se da espada divina, defendendo-se com justificativas e racionalizações. Finalmente, depois de algum tempo, dobrei-me à voz do Espírito.
A idolatria é uma questão mal resolvida para os cristãos evangélicos. É mal resolvida por estar resolvida demais. Não temos problema nenhum em refutar e atacar as formas de religiosidade idólatra, nem em identificarmos e criticarmos tais posturas. Trata-se de um pecado que não freqüenta nossas listas. Admitimos freqüentemente que temos que lutar com a mentira, a maledicência, o orgulho, a vaidade, a promiscuidade e tantos outros pecados mais “evidentes”. Mas a idolatria é simplesmente considerada o “pecado dos outros”. Todavia, se olharmos para a narrativa bíblica, especialmente no Antigo Testamento, veremos que a questão da idolatria é um grande tema bíblico. Desde que Deus tirou Abraão da terra de Ur dos caldeus, reconhecidamente idólatra, para estabelecer um relacionamento de fidelidade a ele, os descendentes de Abraão lutam contra essa tendência que parece estar impregnada na própria natureza do homem.
A idolatria é irracional. Especialmente no contexto do Antigo Testamento. Sempre que vejo as narrativas dos milagres realizados por Deus, por ocasião da libertação do povo de Israel do cativeiro egípcio, tenho grande dificuldade em compreender como a idolatria encontrou espaço no coração dos hebreus. Como alguém pode sequer considerar a hipótese de construir um bezerro de ouro diante da recente abertura do imenso Mar Vermelho diante de seus olhos? Haveria maior prova da soberania de Deus do que as manifestações sobrenaturais do próprio Deus no Êxodo? Comida caindo do céu, águas amargas transformadas em doces, roupas que resistem ao tempo, sandálias que não se desgastam nos pés, águas que saem de rochas – a lista é imensa. Seria possível considerar a hipótese de adorar outros deuses, diante de manifestações tão claras de autoridade e poder? Mas, como sabemos, a idolatria continuou se revelando como um câncer na vida do povo de Deus. Como um viciado que volta à química, Israel voltava à idolatria.
Por que algo tão irracional era tão freqüente? Talvez a resposta esteja por trás do que compreendemos por idolatria. 

A Natureza da Idolatria

O que é um ídolo? A primeira figura que surge em nossas mentes é a de uma imagem de barro, metal ou pedra, diante da qual as pessoas se dobram para pedir alguma coisa. Mas o que está por trás dessa prática é o que constitui o problema.
A idolatria se define basicamente por três características essenciais: utilitarismo, egocentrismo e manipulação.

1. Utilitarismo

Em primeiro lugar, a idolatria é uma relação utilitarista. Um ídolo é um produto das mãos do próprio homem, construído a partir de suas paixões, desejos e necessidades. Nas culturas da antigüidade, os deuses nasciam a partir da necessidade imediata de determinado grupo. Por exemplo, o deus da fertilidade surgiu no contexto da necessidade da colheita. O deus da chuva, nas culturas indígenas, apareceu em um contexto de seca onde a chuva se revelava necessária e, até mesmo, urgente. Portanto, os deuses são construídos a partir de necessidades e desejos. Sem desejo não existe ídolo.
Em última análise, o ídolo não é um fim em si mesmo, e sim um meio para se atingir um fim. O ídolo não é adorado pelo que é e sim pelo que pode dar. O deus do idólatra é um objeto de uso. Uma espécie de trampolim para a realização de desejos pessoais.
Sendo assim, os ídolos nascem onde nascem os desejos. Os maiores postes-ídolos não são altares físicos, mas o próprio coração humano. Onde houver um desejo a ser realizado, existirá um deus a ser adorado. A idolatria não é um pecado exclusivo daqueles que se prostram diante de imagens. Faz parte de todo aquele que carrega – ainda que seja uma pequena fagulha – a ardente natureza corrompida do homem que o leva à busca de satisfação pessoal a qualquer custo.
A relação entre o desejo e o ídolo é dinâmica. De acordo com o desejo, o ídolo sofre mutações. Quando o desejo é dinheiro, o ídolo pode ser o trabalho. Mas quando o desejo é luxo, o ídolo é o próprio dinheiro. 
Quando o desejo é prazer, o sexo se torna um deus. Mas quando o desejo é sentir-se amado, o ídolo pode ser o próprio cônjuge ou os filhos. Quando o desejo é fama, o ídolo pode ser o conhecimento ou talento. Quando o desejo é poder ou controle, o cargo político ou o púlpito da igreja podem tornar-se um deus. O ídolo sempre alimenta o desejo e só é apreciado enquanto atende necessidades.
Para percebermos nossas tendências idólatras, precisamos reconhecer nossos maiores desejos. Onde está o nosso prazer? Onde encontramos satisfação? E mais ainda: que meios, pessoas, posições ou situações nos trazem a sensação do prazer? Quando identificamos os meios, identificamos os deuses. 

2. Egocentrismo

Em segundo lugar, a idolatria é egocêntrica. Se o que caracteriza a idolatria é o uso do deus, quem está no centro da espiritualidade não é o ídolo e, sim, o próprio homem. Enquanto alimenta o seu ídolo, o homem está, na verdade, trabalhando em prol de si mesmo. De fato, todos os ídolos são representações diferenciadas da própria tendência humana de auto-exaltação. Se olharmos nos olhos das “imagens de escultura” de nossos corações, veremos fotos ampliadas de nós mesmos. Enquanto alimentamos o que nos proporciona o objeto de desejo, somos nós mesmos que estamos sendo adorados.
A grande tentação humana é fazer do homem o seu próprio centro. Disfarçada nas mais diversas formas de devoção está a síndrome do Éden: ser igual a Deus. 

3. Manipulação

Em terceiro lugar, a idolatria é manipulativa. É uma forma de definir fronteiras para o invisível. As imagens de esculturas são representações concretas e visíveis da realidade intangível. A princípio, pode ser uma tentativa de trazer para a realidade presente aquilo que se sente que está distante. Talvez fosse essa a intenção dos israelitas ao construir o bezerro de ouro. Colocar uma forma e uma face naquele que os havia libertado do cativeiro. Mas os desdobramentos dessa forma de pensar são extremamente enganosos. Uma vez que o invisível esteja aprisionado em uma forma, ele pode ser facilmente ignorado. O ídolo é manipulável. Ele pode ser venerado e descartado com a mesma facilidade, pois quem está no controle, na verdade, é o próprio homem.  

Idolatria evangélica

Olhando sob esse prisma, aqueles que se denominam adoradores de um único Deus, podem cometer dois grandes erros.
O primeiro é dizer que não somos idólatras, quando nosso coração está cheio de altares. Dizer que não nos prostramos diante de ninguém senão de Deus, quando, na verdade, continuamos venerando nosso reflexo no espelho, fazendo tudo convergir ao nosso umbigo.
No entanto, o mais enganoso dos erros é o erro de servir ao único e verdadeiro Deus com um coração idólatra. A tentação de fazer de Deus um mero deus e, da adoração, mera idolatria.
Fazemos isso aplicando os valores da idolatria em nossa espiritualidade. Relacionando-nos com Deus de forma utilitária, egocêntrica e manipulativa. Quando nossa relação com Deus consiste apenas de usá-lo em prol do alcance de nossos desejos. Quando aquele que deve ser o centro é apenas um meio. Quando nos damos o direito de ignorá-lo uma vez que o consideremos desnecessário. 
A idolatria evangélica é ainda mais contundente do que a veneração a imagens. Quando a praticamos, tentamos reduzir Deus a uma função menor: a função de nos fazer felizes. E quando a felicidade é o desejo final, Deus se torna um mero ídolo. Aquele que é o princípio e o fim de todas as coisas é visto como um trampolim para a realização de seus filhos. Ao invés de ser adorado, passa a ser utilizado. E nada nos acusa de idolatria, pois continuamos cantando nossos cânticos de adoração, praticando nossas disciplinas espirituais e realizando nossas rotinas religiosas. Mas o intento final não é a glória de Deus e, sim, a exaltação pessoal. Se as motivações são centradas no homem, o deus adorado aos domingos é o próprio homem. Servimos a Deus com coração idólatra quando olhamos para Deus procurando enxergar a nós mesmos. Quando levantamos as mãos aos céus, enquanto nos é conveniente. Quando ignoramos a soberania do Deus que nos sonda e conhece para manipularmos sua palavra, visando nosso bem-estar.
Deus é um ídolo quando ele se torna um passaporte para o céu ou um escape do inferno. Deus é um ídolo quando ele se torna um mero pagador de contas e provedor de luxos. Deus se torna um ídolo quando não aceito sua autoridade disciplinar em minha vida, revoltando-me contra os maus acontecimentos da vida e exigindo que ele faça alguma coisa para que eu volte a me sentir bem.  

1. Deus Impessoal

Quando Deus se torna um ídolo, ele se torna impessoal. Estabelece-se uma relação fria, na qual Deus deixa de ser uma pessoa para tornar-se uma energia, uma “coisa” indefinida, que, justamente por não ser definível, não se importa de ser utilizado. Deus acaba assumindo a forma do objeto de desejo, uma vez que quem assim o vê apenas o concebe como sendo um meio para se atingir um fim.
A única situação em que uma pessoa consegue usar outra é quando o outro não é visto como pessoa. Tome por exemplo a prostituição. Um homem somente consegue usar a mulher como objeto, uma vez que não a veja mais como um ser humano. Ignorando sua individualidade e sufocando sua personalidade, aquele que usa alguém não vê problema algum, pois, afinal, é como qualquer outro objeto.
Ao ignorar a revelação de Deus como pessoa, o homem passa a utilizá-lo como qualquer outro objeto, como se a função de Deus fosse servir os interesses particulares dos homens. 

2. Apenas Um dos Gomos da Laranja

Quando Deus se torna um ídolo, ele passa a ser apenas mais uma parte da vida. Nos dias atuais, os homens não ignoram a necessidade humana de espiritualidade. A maioria busca uma determinada expressão de espiritualidade que a faça de alguma forma transcender. No entanto a espiritualidade, nesses casos, não passa de mais uma faceta de uma vida multifacetada. Da mesma forma que a academia de ginástica ou o divã do psicólogo, o templo budista, a sessão espírita, a missa ou a igreja evangélica vêm simplesmente preencher uma necessidade da complexa vida humana.
“...a maioria de nós encara a vida como uma laranja e pensa que Deus é um dos gomos. Funciona mais ou menos da seguinte maneira: assim como interagimos com o trabalho, o lazer, o dinheiro, as pessoas, o corpo, a igreja e por aí vai, também interagimos com Deus – Deus é uma das nossas interações.”1 Nesse sentido, o papel de Deus na espiritualidade do homem pós-moderno é reduzido ao de mero preenchimento ocasional. O grande perigo desse tipo de abordagem é que ela isenta quem assim pensa do incômodo do questionamento. Abrigados pelo confortável esquema religioso, todos parecem estar em paz com a consciência e com Deus, e não existe nenhuma acusação que os faça repensar seus valores.
A religiosidade é um grande engano, talvez a maior aliada de Satanás no ofício de cegar o homem em relação à sua constante necessidade de Deus. Em uma espiritualidade sadia, o homem, embora buscando a santidade, nunca perde de vista suas limitações e tendências pecaminosas. A santidade de Deus e o contato com ela continuamente trazem à luz os ambientes obscuros do coração do homem, levando-o à humildade e ao arrependimento. A religiosidade abafa essa manifestação da luz, amortecendo os sentidos espirituais como uma espécie de anestesia, afastando o homem de Deus enquanto o faz pensar que está mais próximo dele.
 
3. Espiritualidade Imediatista

Quando Deus se torna um ídolo, sua espiritualidade se torna imediatista. Assim que Deus passa a ser visto como um objeto de uso, ele acaba sendo avaliado por seu desempenho. Em um mundo tecnológico onde a rapidez de resposta é a marca registrada da maioria dos objetos de uso, Deus tem a obrigação de responder com rapidez e eficiência.
Falar sobre o kairós de Deus é algo obsoleto e inquietante em uma sociedade acostumada a acionar botões. As pessoas estão cada vez mais impacientes. Ficam extremamente irritadas por esperarem um ou dois minutos no caixa eletrônico. Sentem que estão perdendo tempo. Sob essa perspectiva, se o cristianismo não providenciar respostas rápidas e prontas, ele se torna um sistema inadequado ao modus vivendi atual.
Enfim, à medida que esse processo se desenvolve, as posições vão se invertendo. O homem se torna deus e Deus, um mero ídolo. 

Vencendo a idolatria

Deus não procura idólatras, ele procura adoradores. A adoração pressupõe submissão. Se nossa postura idólatra é constituída a partir de nossos desejos, a única maneira de deixar de ser idólatra é desejar a Deus. Se nossa busca pela felicidade nos torna idólatras, precisamos fazer de Deus nossa felicidade. Somente quando nosso deleite estiver centrado nele é que poderemos chamá-lo de Deus.
Creio que a verdadeira adoração é encontrar em Deus o lugar de prazer. Quando olhamos para ele sem enxergar nossas projeções e ideais, e conseguimos nos deliciar tão-somente no fato de estarmos com ele, então a libertação acontece.
No entanto, é necessária uma honesta avaliação. Como disse no início, existe uma imensa batalha sendo travada em nossas mentes, procurando anestesiar-nos em relação à idolatria. Mas se nos colocarmos diante de Deus, permitindo que ele nos sonde, nossa postura idólatra se evidenciará. Quando a imagem de Dagom foi colocada diante da Arca da Aliança, o ídolo pagão caiu por terra totalmente desmembrado. É preciso um Deus verdadeiro para confrontar a idolatria. É preciso submeter-se à avaliação divina; deixar que ele traga à tona nossas reais motivações, para que possamos encontrar lugar de arrependimento.
A idolatria é, sim, um pecado dos crentes. E, como todo pecado, precisa de arrependimento para ser limpo. O primeiro mandamento continua abordando um problema atual: nossa tendência em formar ídolos. Refletindo mais tarde, descobri que Mateus 22.17 não substitui Êxodo 20.3. Não é possível amar a Deus sem antes derrubar os ídolos, assim como não é possível adorar sem deixar de ser idólatra.
Que Deus nos perscrute com sua palavra e seu Espírito, derrube nossas tendências idólatras e seja para nós o único e verdadeiro Deus.

por Mateus Ferraz de Campos
http://www.kolshofar.com.br/
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